sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A ouvir o mar da cama

o mar no inverno é uma cabeça dilatada
uma floresta de lâmpadas
onde celebras a aparição do frio.
as raízes do sono escoam o escuro
dentro da memória a água é suave.
os dedos tocam a superfície da respiração
no lirismo tóxico dos sonhos.
o canto das ondas feridas
atravessa a existência.
os relâmpagos afogados no rosto
a areia desdobrada sobre o útero.
estas são as imagens de vocabulário
deitadas incrustadas nos lençóis.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Dicas para um desempregado

coloca todos os dias o despertador para a mesma hora
e utiliza o sistema linguístico que preferires no silêncio.
tens muitos canais à escolha,
escolhe aquele que te evadir primeiro
sai da cama e sente-te inválido
como a chuva que hoje chove e amanhã não
os dias no calendário que se sucedem
e nada acontece
escreve por graça e escreve de graça
quando não se tem não se gasta
recebe as prestações sociais para te pagarem as compras no Lidl
bebe mais ou menos a mesma quantidade de álcool,
masturba-te durante a tarde
telefona aos teus pais,
verifica se já morreu mais alguém.
procede até ao fim do dia até ao fim da noite,
procede até ao fim.




em "O Movimento Impróprio do Mundo" Âncora Editora, 2016

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Autorretrato

febre inquieta,
desejo de artista,
mar selvagem
no aroma do gelo.
um olhar fixo
sobre as vítimas periféricas
na parte asiática do meu desejo.
segmentos de sombra justificáveis
na convocação das pálpebras,
o tédio nos bolsos junto ao
smartphone permissivo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O sepulcro-espelho

tens um pedaço de madeira na carne,
há uma beleza a inchar
os teus os seios centrífugos.
lentamente a ferida lambe o gato
que se junta à ciência da embriaguez.
o movimento impróprio do mundo
incomoda-te.
eu sei que a claridade do sexo te acalma
mas a tua idade lenta tem vindo a
deformar o amor.
queres humedecer os nervos
com escuridão.
a harmonia demoníaca do teu desejo
sacrifica-se mais uma vez pelos livros ardentes.
deixa que o sepulcro te masturbe.

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Estudante de Relações Internacionais

Conheci-te em Judaberg numa noite íngreme. 
A neve tingia-nos a voz. O apetite melancólico
da ilha aproximou-te imediatamente do meu corpo 
e, apesar dos sorrisos cordiais, partilhávamos
o mesmo fascínio pela guerra.

Contos europeus ardiam pela vodka com sangue,
ascendiam pela madrugada cada vez mais nossa.
O 4 de Julho é o dia em que Sigismundo II
anexa a Lituânia à Polónia. No século XX
deportaram-te familiares para a Sibéria.
O mar do norte raspava-nos as palavras,
enquanto a neve nos esmagava contra
o esquecimento da ilha. Sabia que podia
partilhar contigo a minha dívida soberana,
a minha identidade republicana, a ausência
de sono, o medo e o existencialismo.
Combinámos encontrar-nos algures entre
o Império Otomano e o Bizantino,
por volta de Agosto. Eu apanhei o avião
tu vieste de autocarro. Quando lá chegámos
o sul da Europa já não te interessava porque
estavas deslumbrado com os conflitos no Líbano.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A semiótica do sucesso

ninguém te viu como eu te vi,
um sobressalto de sangue,
uma tradução nebulosa
um poema escrito no metro em direção a Odivelas
isto porque eu sei que ninguém te escreveu
ou contemplou a enfermidade
que trazes esculpida na alma
talvez porque mais ninguém traz letras suficientes
na boca,
talvez porque te pareças com uma ave ferida
pela pós-modernidade,
e o meu instinto é demasiado solto
na tua postura muito reta
na gravata inesperada aos trinta
toda a tua invisibilidade relata
a semiótica do sucesso.
no teu fato construído com a paciência neoliberal
que tanto dizes apreciar
enquanto secretamente querias passar os dias

comigo e umas gramas de marijuana.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Crítica Literária

as árvores ensopam o domingo lento
que se acumula junto aos pés
pelo musgo no colo sei que estás em direto
acusas-me de ter um corpo miúdo
acusas-me sempre do mesmo

do corpo que se expande pelo poema
sabes que me vou esvair em ásia
sabes que são horas de esclarecer
o propósito desses assassinatos.

vesti a saia de fósforos, a tua preferida 
no meu ventre asteca queres incendiar o mundo.
na procriação da sala
visto ao poema um refrão ecológico.

o corpo miúdo amiúde hermético como a geladeira
onde deixaste aquele ensaio esvair-se em sangue.

acusas-me de nunca me separar da casa.

de braços cruzados na contemplação da sorte
eu diria que é o trânsito das portas
e o sossego do Tejo
naquele quadro do anterior arrendatário. 

é um verão longo no rodapé da razão

e o meu uivo domesticado
tem raízes no simbolismo, continuas,

largo os pés de vez
em direção à página branca
ao militarismo trémulo da tua voz

de encontro à pele críptica do papel
acusas a boca de se habituar à fotografia
e as notícias de saquearem a grafia
na sala procriam-se palavras irregulares.


uma casa corpo, não passo de.

domingo, 12 de abril de 2015

Tudo amadurece,

até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos

e deus ressuscitará entretanto. 

sábado, 11 de abril de 2015

Cheguei demasiado cedo

ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz

até à intimidade do céu.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O cabelo abre-se na chuva,

a praça flutua
pela atenção palpitante.
o silêncio quer enlouquecer
de forma audível.
e o rosto esconde a noite
enquanto os ecos das montanhas
nos envolvem
em possibilidades infinitas.
a minha arte é plástica:
uma tela molhada
em peregrinação lírica.
a matéria reinventa-se no útero dos nomes.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Uma imagem lenta

vou enquadrar-te nesta folha
através de uma imagem lenta.
quero que saibas que penso em ti
e que o pensamento de ti é uma turbulência.
fazem hoje cem anos desde que a arte te previu
num sorriso de tabaco no canto da página.
não te quero dar conselhos apenas observar
que Janeiro é um mês altamente inflamável
e que sinto a sombra dos teus poros na minha pele.
peço-te ainda que me recues das palavras agudas
e deixes a cidade gravitar em mim,
sou carne sem fôlego e sem poética
numa clareza incessante de árvores noturnas.

estendo-te a mão na noite contínua. 

Tensão

a comida engelha-se na boca
o vinho é de qualidade reconstituída
como a mobília
a família vai desaguando com cuidado.

todas as personagens têm personalidades vencidas
penduram-se nas paredes
engole-se o bom senso
pois dele não se alimenta o pulmão da sala.

vamos demolindo o português até às reticências.
falamos de assuntos
e deixamos o vidro das conclusões
rodopiar.
por cima do vinho e do sangue em vinho
os conhecidos e os inocentes, os infiéis
somos suprassumos da lógica
mestres da verdade
ligamos a televisão
para não termos que partir pratos.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

A literatura é uma fábrica

com miolos azuis
manhãs burguesas,
telefones ou telemóveis que vibram com os lábios
um automóvel, um prédio
um fascismo vulnerável
num horizonte proletário,
a lógica escorrega-me
diretamente da gargalhada,
mas o meu género é subgénero
asfixiado,
transpirado
transpira pelas paredes.
que venha o fado
ou então o gado, para facilitar,

talvez o gado.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Liberdade

a liberdade é deixar-se estar a meio dos desejos
é uma procura de ardores
uma rua onde Ramos Rosa adiou o amor.
os séculos sucederam-se
no ventre da lenha
onde ardem todas as bandeiras do mundo.
deixa-me na margem do Outono
porque a liberdade é cinzenta
como os braços da terra
falta-me procurar a liberdade
na cintura da chuva, no riso da arma.
quero desfiar a voz para encontrar a retórica do medo.
tantas palavras começadas por a: acaso, ação, ator, adultério, amor
mas eu quero renascer das balas
e trazer-te livre
derramar-te no oceano com o mesmo sangue dos atores,
do adultério e do acaso.
não se ama a liberdade,
bebe-se liberdade
misturada com espumante e terror.
é o rasto da revolta
é o desprezo pelo erro.
hoje liberto-me de ti, amor
e tudo é um acaso gelado,

uma ação livre e miserável.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Tenho a sabedoria de possuir

uma civilização comprida
com a beleza a encharcar-me
os antebraços. 
deito-me na extensão desta doença,
adormeço nos corredores inexplorados
do medo.
o tempo mede a viagem
e a viagem cresce por dentro
do mármore.
deixa-me acreditar na noite
e nas paredes dançantes,
nos lugares corrigidos
onde se cumprem
as peregrinações da fome.
um homem dispara contra mim a liberdade,
morro em silêncio
na presença simples dos lábios,

nas formas concretas que desafiam os objetos.